Uma dos momentos de maior aflição na vida de um fotógrafo é a escolha da primeira câmara. Algumas vezes, limitações externas facilitam a escolha. Por exemplo, a minha primeira câmara foi uma Nikon D40 porque era a única câmara que eu tinha dinheiro para comprar, na época. A minha segunda lente foi uma 50mm 1.8 pela mesma razão.
(A Nikon D40 foi roubada no Rio de Janeiro, mas a 50mm 1.8 eu uso até hoje)
A maioria dos telefones hoje em dia tem uma câmara perfeitamente competente, mas não chegam aos pés de uma DSLR ou uma mirrorless em muitas áreas. Compare as duas fotos a seguir, ambas tiradas há mais de 10 anos:


Hoje em dia, os telefones dão conta de ser aquela “câmara que está sempre conosco”, o que me leva a sugerir que um iniciante se pergunte o seguinte:
- Eu levo fotografia tão a sério, que estou disposto a investir muito mais em lentes e acessórios que o preço da câmara por si só? Incluindo-se na conta: armazenamento, software, um bom monitor (ou bom laptop), etc..
- Não me importo não poder compartilhar minhas fotos instantaneamente? Mesmo considerando que muitas câmaras modernas têm wifi e bluetooth, a experiência não é a mesma.
- Estou disposto a ralar muito, por meses e anos, até começar a me (in)satisfazer com o resultado do meu trabalho? Câmaras e lentes não tiram fotos. Quem tira fotos é você.
- O peso extra me incomodaria? Uma câmara em casa é desperdício de dinheiro. Uma câmara na mochila durante uma trilha de dias pelas montanhas faz diferença!
Após considerar todas essas opções, é hora de rever outros pontos importantes.
Escolhendo uma marca
Felizmente, não existe “a melhor marca de todas”. Todos sabemos o horror que é um mercado monopolizado. Os leitores mais velhos se lembrarão que, no passado distante, pagávamos para ligar e receber chamadas no celular.
Eu uso Nikon porque comecei na Nikon e era a máquina mais barata. Só isso. Nunca tive um motivo forte para trocar. E, sinceramente, ninguém tem. Considerando-se Nikon, Canon e, mais recentemente, a Sony, essas marcas sempre estão na frente e atrás das outras em um aspecto ou outro.
Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica trocar de marca. Você já entende as configurações que te dão a cor que você gosta, já tem várias lentes, flashes e baterias. Então, mesmo que as três grandes não tenham nada de mortalmente errado, é importante escolher com carinho.
Eu ousaria até dizer que AS SEIS GRANDES são boas escolhas, incluindo aí na lista a Pentax, a Fuji e a Panasonic. Mas existem nuances:
- A Panasonic tem ótimas funções de vídeo.
- A Pentax continua focada nas DSLR como nicho declarado.
- A Fuji é famosa pela ergonomia mais vintage e pela ótima definição de tons de pele.
- A Sony investiu pesado em mirrorless e tem um acervo de lentes invejável.
E etc..
Orçamento
Com inflações e taxas de câmbio em mente, presumamos que uma máquina básica com uma lente 18-55 custe entre 4000 e 5000 reais. Adicionando-se à conta inicial uma bolsa, cartões de memória e talvez uma 35mm ou 50mm para sensor APS-C, a conta rapidamente pode chegar a 8000 reais.
Ora, considerando-se dedicação e estudo, logo logo o seu kit inicial se tornará frustrante. Uma lente extra, talvez um flash e um corpo APS-C um pouquinho melhor e, em pouco tempo, a conta já estará em torno de 10.000 reais. Se você migrar para full frame 35mm, precisará de lentes novas. Mesmo vendendo sua câmara “usada” por um bom preço, a conta pode chegar a 15.000 reais em muito pouco tempo.
Com a situação econômica eternamente péssima do Brasil, é um gasto que só vale a pena se você for se dedicar. Caso contrário, é iPhone na veia.

Uma alternativa mais barata e ecológica é comprar equipamento usado. Eu comprei a minha 14-24 2.8 usada, por ⅓ do preço original e a lente está literalmente nova.

Muitas vezes, sua câmara não importa
Em dia de céu de brigadeiro, qualquer telefone tira uma foto excelente, a não ser que você tenha a intenção de revelar uma foto com 1 metro de largura.

Mas outras vezes, importa…
Não importa quantos aplicativos de fundo borrado você instale no seu telefone, nada simula a física dos raios da luz.

Nem um sensor grande com bastante espaço para captar e capturar cada um dos fótons perdidos.

O que nos retorna à questão prática. Você vai se dar ao trabalho de carregar um tripé? Ou passar 30 minutos tentando fazer os cachorros ficarem na posição que você quer, para conseguir que todos ficassem em foco?
Se a resposta é não, você provavelmente não precisa nem quer comprar uma câmara. Coloque o dinheiro na poupança.
Conclusão
É importante começar a definir o seu relacionamento com fotografia antes de comprar a primeira câmara de verdade. Claro que esse relacionamento só se definirá completamente depois que você começar a sua jornada pelo mundo da fotografia, mas é importante saber se a água é funda antes de pular de cabeça.
Ser viciado em selfies ou tirar fotos com o celular compulsivamente não é indicador de que você será apaixonado por fotografia. É um relacionamento diferente, que requer investimento de tempo, conhecimento, espaço e peso na mochila e bastante dinheiro.
Recomendo começar aos poucos. Ninguém tira a carteira de motorista em uma Ferrari. A minha primeira máquina foi roubada, eu já derrubei equipamento no chão e a minha D7000 levou muito mais pancada do que deveria.
Quando eu, ainda criança, comecei a tocar trompete, pedi aos meus pais um trompete bom. Eles compraram um trompete barato. Foi uma ótima escolha. Meu primeiro trompete literalmente caiu da janela.
Se você decidir seguir essa maravilhosa jornada, você vai naturalmente descobrir o que gosta mais de fazer, comprar as lentes apropriadas para tal e avançar para máquinas mais avançadas à medida que a sua máquina atual começar a te limitar.
Boa viagem!